na barriga do monstro
moro numa ilha. desperto sempre com notícias do mundo: faça chuva ou faça sol, observo a cor do mar, a intensidade das ondas, a altura da maré. pra saber se chove, basta olhar a distância entre as nuvens y o topo do morro. quando há chuva, pra saber se é bruta, basta olhar o trapiche: se os pescadores recolheram seus barcos, melhor ficar em casa y rezar. às onze y meia eu saio quase todos os dias das mãos macias dessa ponta de ilha pra ir até seus dentes de concreto. mas ainda em meio aos prédios, vejo a mata. na avenida, o trânsito pára: que atrevesse a rua uma família de capivaras. mosquitama do mangue que graças a deus não chega dentro do ônibus, onde olho pra um lado y é edifício, olho pro outro y é pescador solitário aproveitando da luz do sol seu último suspiro. esse lugar tem uma hibridez que me conforta no seu meio-a-meio; eu, que nunca fui de inteiros, pareço ser um pouco mais bem-vindo nesse pedaço de mundo. bom, tudo isso pra voltar ao início: moro numa ilha. moro no coração da sereia. mas resolvi ir pra barriga do monstro, a cidade das cidades, o pedaço de terra mais sem terra que há nas fronteiras desse lugar, o berçário amontoado, são paulo. o que tem de santo se resume ao nome, eu pensava, esse lugar é do diabo. não fui feito pra isso. mas disso eu já sabia, porque não era a primeira vez. só que era a primeira vez na expectativa de ser mais que eu-só, primeira vez na tentativa de ser nós. fui nada. no meio de tantos, eu fui menos que só, menos que eu. não encontrei amor porque não consegui chegar. não houve com o quê fazer os nós. não houve palavra que me coubesse na boca, só cerveja que me descesse a garganta y nem o silêncio conseguiu ficar. nada que é meu pôde se acomodar por tempo suficiente, tive que deixar meu corpo vagar sem presença. não se enganem: eu fui, mas eu não tava lá. não consegui chegar: a multidão foi camada impermeável, não desaguei. ficou um poço que enfiei na lata sobre as nuvens y agora escoa à conta-gotas nesse pedaço de terra em cima d’água-salgada, o lugar que eu chamo casa. não sei o nome daquilo que fez com vocês esse pedaço de cimento em cima d’água-doce, mas tem cheiro de maldição. eu vi todos vocês feitos d’uma parte de cimento, duas de areia y três de brita, massa mole escorrendo das têmporas, dos olhos, dos dedos. eu, se fosse vocês, não seria eu. por isso fiquei me perguntando quem será que vocês são.
